“Amores”

O coração é como o estômago

Basta um pouco de fome

Para que se lance a devorar

Qualquer coisa que esteja ao alcance

I

E como lambe os beiços

Se empanturra

Até que, farto,

Percebe que o consumido

Engolido

E digerido

Em nada lhe atrai o apetite

Sem uma colher de sopa de desespero

I

Muitos temem a solidão

Eu temo o dia em que terei que velá-la

Ao lado de uma nova parceira

Maquiada pelos medos e incertezas

Que adquiri no longo convívio que tive

Comigo mesmo

I

E nesse ímpeto insensato

De colocar o amor numa cesta

E passá-lo no caixa

Acredito que serei levado

À exumação de minha velha amiga

I

E ao triste olhar na terra violada

Escavado túnel que leva ao nada

Deparando-me com o caixão vazio

Terei a certeza de que

Permanecendo como sombra

A finada solidão

Jamais partiu.

2 Respostas para ““Amores””

  1. Ítalo Disse:

    O coração, quando sente fome, é capaz de adquirir um apetite devorador. Uma vez saciado o que acontece?
    Quando amor, torna-se refeição diaria.
    Quando paixão, um rodizio numa churrascaria!

    Parabéns pela poesia!

  2. oscarosse Disse:

    Disse bem Ítalo…
    E como são poucas as refeições diárias hoje em dia!
    A vida agitada, guiada pelo distanciamento e pela impessoalidade, leva as pessoas a passagens breves em rodízios de churrascarias…

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