Ferrugem

18 Novembro, 2009

Quer do fim

quer do começo

triste sim

o recomeço

o remorso

e os traços e as cicatrizes

das cinzas do amanhecer

do orvalho e do orgasmo

tudo em uma nefasta nuvem

vermelha como ferrugem

Ontem uma seta flamejante

hoje um míssil perfurante

ou um ataque cardíaco

numa banheira espumante

Tranca-te no armário da bagunça

mas deixa a tranqueira do lado de fora

rosna como uma leoa que coça e rola

esfola tua carne enquanto rugem

lambe o chão até secar o sangue

vermelho como ferrugem

Retorna o olhar fechado

cara de mal, linda, braços cruzados

o dedo com anel de rubi

me aponta a sentença de morte

corpo esculpido, alta, um belo porte

olhos verdes, fêmea raivosa

pele macia, me fez o corte

enquanto sangrava, senti seu cheiro de jasmim

gritei de dor, vivo enquanto pude

ultima visão: cabelos longos

e vermelhos como ferrugem

 


A lenda do monge e do escorpião

10 Novembro, 2009

Diz a lenda, que um monge e seus discípulos caminhavam por uma estrada, quando passavam por uma ponte e viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. Imediatamente, o monge correu pela margem do rio, entrou na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora, o escorpião o picou. Devido a dor, ele deixou-o cair novamente no rio. O monge pegou então um ramo de árvore, adiantou-se outra vez, e entrou no rio, colhendo o escorpião e salvando-o. Satisfeito, o monge voltou à ponte e juntou-se a seus discípulos. Eles, que haviam assistido à cena, o receberam perplexos e penalizados. Um deles, então falou: – Mestre, deve estar doendo muito! Mas porque foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos. Veja como ele retribuiu à sua ajuda. Picou a mão que o salvava. Não merecia a sua compaixão! O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu sereno: – “Ele agiu conforme a sua natureza e eu de acordo com a minha”.