Sob a escuridão que se estarrece pela viela
Por mais estranho que pareça, todos os gatos são pardos
Choramingando alto, gritando besteira, miando balela
Não passam de vira latas, mas fazem-se de leopardo
Na periferia da formosa cidade, a viela
Ela! Linda, divina, e até certo ponto exuberante
Bustos salientes e um tanto estreita e magricela
Tem um certo valor, apesar de sua voz irritante
Ah, misteriosa, mística, a charmosa viela
A calmaria digna de um recluso templo budista
Agora regada ao som de gemidos e lambidelas
Poderosa viela, não há quem a ti resista!
Incolores, inodoras, insípidas: gotículas caem sob a viela
Nas moradias ao redor, jaz a paz e a tranquilidade
O gostoso barulho de água caindo nas panelas
Que nos desperta a preguiça, e com voracidade!
Até que então os gatos, amantes, panelas e até mesmo a chuva
Irritados com o fato dela ser muito tímida e sossegada
Decidiram procurar novos ares, deixando-a viúva
Permitindo minha tão sonhada empreitada
Amor à primeira vista! Volte à rima, minha viela
O sangue fervente subiu pelos canos do subsolo
Quando a vi, e ela me viu, e eu vi, ela
Fiz-lhe carinho, acariciei, peguei-a no colo
Estiveste em minha soberania, cara viela
Mas cometi um grave erro, que ainda me assola
Fixei-lhe a atenção e após uma olhadela
Imperdoável equívoco: chamei-lhe “viola”!
Após choros e brigas, nunca mais a vi
Nunca me procuraste, também não te procurei
E é por esta infame história que estou aqui
Junto aos gatos, panelas e à chuva, um poema lhe comporei!
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