Fora do ar

30 Outubro, 2009

Naveguei sobre o mar dos sonhos


embora possua esclerose lateral amiotrófica


O meu barco virou


contra a ditadura da razão


Aprendi a nadar


Virei um astro de TV


Aprendi a voar


até uma vila no Estado de Sergipe


Como é bom estar no ar


Como é bom estar fora do ar…

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Imagem por : nessie

Femalê

2 Julho, 2008

Trocamos figurinhas
Compartilhamos prazeres
Multipliquei tuas alegrias
Ouvi o som da tua alma
Dancei o teu bolero
Elogiei-te, sincero
Acariciei-te o ego
Dei-te remédio

- Que tédio!

Então fui descartado…


Umbilicalização

1 Maio, 2008

Haverá o tempo em que as pessoas

não mais olharão os excluídos com medo

tomando-os como ameaça ao belo mundo

construído atrás de cercas elétricas e vigias

.

Haverá o tempo em que as pessoas

não mais olharão os miseráveis com asco

como se fossem produtos apodrecidos

sem lixeiro que dê conta

.

Haverá o tempo em que as pessoas

não mais olharão com ar segregatório

colorindo postos e cargos 

com doentias idéias de supremacia

.

 Haverá o tempo em que as pessoas

não mais olharão a diferença como divisão

enquanto agem como gado pastando

em sua previsível e padronizada conduta

.

O que sei é que haverá um tempo

em que as pessoas nem mais olharão.


Águas Passadas

28 Abril, 2008

Ando por aquela linha

o fio da navalha

com o peito dos pés amassados

com aquele formato do passado

.

O sabor inesquecível da adolescência

que se vive poucas vezes

sempre relembrados nas festas

que se fazem na minha mente

.

Aquela música resgata o aroma

aquela outra, a abundancia irresponsável

a loucura de ser e de não ser

e tudo inunda o agir…

Águas passadas!


“Amores”

27 Abril, 2008

O coração é como o estômago

Basta um pouco de fome

Para que se lance a devorar

Qualquer coisa que esteja ao alcance

I

E como lambe os beiços

Se empanturra

Até que, farto,

Percebe que o consumido

Engolido

E digerido

Em nada lhe atrai o apetite

Sem uma colher de sopa de desespero

I

Muitos temem a solidão

Eu temo o dia em que terei que velá-la

Ao lado de uma nova parceira

Maquiada pelos medos e incertezas

Que adquiri no longo convívio que tive

Comigo mesmo

I

E nesse ímpeto insensato

De colocar o amor numa cesta

E passá-lo no caixa

Acredito que serei levado

À exumação de minha velha amiga

I

E ao triste olhar na terra violada

Escavado túnel que leva ao nada

Deparando-me com o caixão vazio

Terei a certeza de que

Permanecendo como sombra

A finada solidão

Jamais partiu.


Embriaguez

26 Abril, 2008

O mundo é a roda de nossa saia

e todos giram juntos quando se volta

as luas que são dois par de olhos

apaixonam pelo reflexo

.

Que bom…

.

das grandes cercas farpadas

cujas pontas enroscam o couro

não existe mais mundo

o além requer um pouco de sangue

e um pacto vivo com a coragem

As jogatinas das quartas-feiras

a busca emblemática sedenta

os risos espalhados pelo ar

.

Mas o álcool acaba

e a normalidade sempre volta:

desentope a pia!

almoça na tua tia!

toma chuva fria!